Bullying: maioria já foi humilhada na escola ou no trabalho

22 de março de 2021

Apelidos de mau gosto, xingamentos e exclusão não fazem parte apenas do universo de crianças e adolescentes. Atitudes ofensivas com humilhações, características do bullying, também acontecem na fase adulta, principalmente na escola, faculdade ou no trabalho.

Um levantamento feito pela Empresa Júnior da Universidade Vila Velha (EJUVV) em parceria com A Tribuna mostra que 60,3% das pessoas já sofreram humilhações na Grande Vitória.

A escola ou faculdade (43,7%) e o trabalho (39,7%) foram os locais onde aconteceram mais episódios de humilhações.

“Esses ambientes são livres de agentes punidores, ou seja, é mais fácil de o comportamento inadequado ser visto como algo legal e mais difícil de alguém repreender pelo excesso de brincadeira”, observa a psicóloga Camila Carvalho, da Pontual Saúde.

Segundo o coordenador da pesquisa, professor Fabrício Azevedo, o bullying é uma questão cultural. “O que me surpreende é que 15,5% das pessoas responderam ‘talvez’ quando foram perguntadas se já haviam sofrido humilhações na fase adulta. Às vezes, as pessoas nem sabem se foram vítimas ou não”.

A psicóloga Monique Nogueira também ressalta que, muitas vezes, as vítimas sofrem bullying, mas não conseguem identificar o problema. “É comum a pessoa procurar ajuda quando já está no extremo da dor, muitas vezes, já com uma demanda de depressão ou ansiedade como consequência de meses ou anos sofrendo o bullying”.

O professor universitário e advogado Fabrício Posocco explica que o bullying corresponde à prática de atos de violência física ou psicológica, intencionais e repetidos, cometidos por um ou mais agressores contra a vítima.

“Isso atormenta um grande número de vítimas no Brasil e no mundo. O termo em inglês ‘bullying’ é derivado da palavra ‘bully’, que pode ser tirano, brutal”.

O advogado trabalhista Wiler Coelho explica que o assédio moral é a forma mais recorrente de humilhação no ambiente de trabalho e ocorre quando a conduta é repetitiva.

“Ocorrem situações em que existem práticas de humilhação, constrangimento e estresse excessivo do funcionário. É aí que nasce o assédio moral, que pode ser tão intenso que chega a causar transtornos psicológicos”.

Lei prevê até cadeia como punição

A prática de bullying, com humilhações e constrangimentos, pode ser configurada como crime.

“A Lei 13.185/2015 define o bullying como todo ato de violência física ou psicológica, intencional e repetitivo. O bullying, em sua maioria das vezes, pode se configurar como um crime contra a honra, enquadrado em vários artigos distintos: difamação, injúria, constrangimento ilegal e ameaça”, explica o advogado Fabricio Posocco.

A advogada Geovanna Lourenzini reforça que, quando as humilhações são feitas por pessoas que têm relacionamento íntimo, como marido, namorado ou ex, pode ser qualificada como violência psicológica.

“A Lei Maria da Penha alterou o Código Penal, como a introdução do parágrafo 9, do artigo 129, possibilitando que agressores de mulheres em âmbito familiar sejam presos em flagrante ou tenham sua prisão preventiva decretada”.

O advogado trabalhista Leonardo Ribeiro diz que humilhações no ambiente de trabalho podem ser enquadradas como assédio moral. “Tortura psicológica, para afetar a autoestima do empregado, visando forçar sua demissão, sonegar-lhe informações e fingir que não o vê são algumas das formas de assédio”.

*Reportagem de Lorrany Martins para edição impressa do jornal A Tribuna (7/3/21)