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Criado pela empresa alemã Cipsoft em 1997, o jogo Tibia é um fenômeno. Sem som, com elementos visuais 2D e animações gráficas retrô, ele reúne até 40 mil jogadores online simultaneamente. Todos os dias, a audiência chega a 120 mil usuários.

Agora, fenômeno mesmo é o que jogadores têm conseguido fazer a partir dele.

Há cerca de 10 anos, Tibia era apenas diversão para o porto-alegrense Gunnar Ferreira, 26, que passava o dia todo jogando em frente ao computador. A chegada à maioridade e a pressão da família para que ele encontrasse um emprego fez com que o jogo virasse uma fonte de renda. Ele passou a comprar e vender as moedas de ouro (gold coins) ganhas no jogo para amigos — aos poucos, era só isso que fazia naquele ambiente.

Ferreira criou o site TibiaforSale para concentrar as transações. Com o tempo, sua rede de relacionamentos cresceu dentro do game, a ponto de comprar o dinheiro do jogo e revender por dinheiro real. “Tibia mudou minha vida. Com 21 anos eu fiz R$ 1 milhão negociando”, diz.

Hoje, seu site revende Tibia Coins, um tipo de moeda virtual do jogo que pode ser comprada dentro do mercado do game, por Gold Coins, ou fora dele por dinheiro real. No site oficial do game, o câmbio está em R$ 56 pela quantia de 250 Tibia Coins, com a qual é possível comprar também 30 dias de Premium Time, que dá acesso a todas as cidades e outras vantagens que ajudam no avanço dos personagens.

Do andar de cima da casa da família, trabalhando cerca de 16 horas por dia, as atividades no game que viraram negócio em 2013 garantiram que Ferreira, que nunca trabalhou antes em um emprego formal, pudesse comprar sua casa própria, viajasse para a Europa e Estados Unidos, ajudasse nas despesas da graduação em medicina de sua irmã e ostentasse fotos em carros esportivos em sua conta do Instagram. “Nunca fui muito de sair ir para baladas. No começo, dividia uma marmita para o almoço e janta, enquanto fazia as transações de itens do jogo”, lembra ele.

A possibilidade de ganhar dinheiro jogando atrai diversos jogadores, que veem no jogo uma oportunidade de ganhar dinheiro de verdade caçando criaturas e vendendo seus itens, até conseguirem comprar quantidade suficiente de Tibia Coins. Muitos vendem as moedas a outras pessoas ou a sites como o de Gunnar. A transação permite que se avance mais rápido no jogo. “Hoje pagamos R$ 42 em 250 Tibia Coins e revendemos por R$ 52”, explica Ferreira.

Em maio, o site TibiaforSale se tornou um dos três revendedores oficiais brasileiros e a empresa agora pode comprar as moedas com 18% de desconto do próprio desenvolvedor do game. “Já vendemos até R$ 60 mil reais em um dia”, revela.

Estrutura do jogo

O estilo MMORPG (massively multiplayer online role playing game) permite que se criem personagens e interaja de forma dinâmica em um mundo persistente, aberto, sem objetivos pré-definidos.

Dentro do game, cuja narrativa remonta à era medieval, é possível escolher entre quatro classes: druida, feiticeiro, cavaleiro ou paladino, que podem se unir em times chamados guildas, caçar criaturas, declarar guerras, fazer amizades dentro da comunidade ou simplesmente explorar o mapa. O jogo, em si, é gratuito.

É possível demorar meses ou anos para conseguir vencer um embate com as guildas mais fortes e tornar-se o melhor jogador de um dos 77 servidores disponíveis para iniciar uma aventura ou acessar todas as áreas do jogo. Uma porta restrita para jogadores de nível 999 ou acima só foi aberta 12 anos após sua implementação no game, por exemplo.

Pessoas de mais de 200 países jogam Tibia. O Brasil está junto com os Estados Unidos, Suécia, Polônia e México, entre os países que mais têm jogadores, de acordo com um infográfico divulgado pela desenvolvedora.

Brincadeira ou extorsão?

Longe das ambições de vender moedas no jogo, o servidor público Renan Honorato, 34, de Guaratinguetá (SP), aproveita o tempo livre para se divertir com sua esposa jogando cerca de duas horas por dia no servidor do game chamado Zunera, em que não é possível trocar os personagens para outro servidor. Jogando todos os dias por cerca de um ano, ele conseguiu alcançar o nível 251 em um personagem.

Recentemente, Honorato passou por uma experiência nada agradável: foi seguido dentro do jogo, derrotado e morto.

Quando isso acontece, o personagem perde uma porcentagem de pontos de experiência conquistados e pode ou não perder equipamentos — algo comum à mecânica do game, com a diferença da proposta de paz.

A guilda que o matou lhe ofereceu um “acordo de paz”, em troca do pagamento do dinheiro monetizável do jogo. Para poder jogar sem adversários, Honorato e a esposa pagam 25 Tibia Coins mensais a esse grupo de jogadores (entre R$ 5 a R$ 6). Esse é o custo para passar a ser um membro do time que reúne o maior número de jogadores ativos nesse servidor. “Não tive opção. Ou entrava na guilda pagando essa mensalidade ou esse grupo dominante me perturbava o jogo todo tentando me matar.”

TAB testou o jogo e também teve um personagem perseguido e derrotado. Ao questionar o porquê do ataque, o grupo alegou que persegue a todos que não fazem parte da sua guilda, e abriu a proposta de integrá-la mediante pagamento. Somente os líderes têm acesso à moeda virtual.

Para o advogado Fabricio Posocco, que trabalha na área do Direito Digital, a prática pode ser encarada como uma extorsão virtual. “Se admitirmos que as moedas virtuais são hoje valores econômicos, em tese, as chantagens virtuais existentes poderiam ser apontadas como extorsão virtual, admitindo uma interpretação ampla da legislação criminal nacional.”

No entanto, o advogado lembra que a interpretação não é admitida pela jurisprudência. “Parte dos profissionais alega que deve existir uma legislação específica para o mundo virtual, sob o argumento de que condutas específicas ocorridas no mundo virtual não são criminalizadas e, portanto, não podem ser punidas.”

Estar no jogo é opcional, mas Helen Barbosa dos Santos, doutora em Psicologia Social e Institucional pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), vê um quadro de submissão virtual nos jogadores. “O prazer do jogo pode fazer algumas pessoas se submeterem a alguns exemplos de violência, que pode ser a patrimonial, pode ser a psicológica. Essa pessoa vai pagar um preço se o jogo significar algo a mais para ela”, comenta.

O TAB questionou a Cipsoft, desenvolvedora do jogo. Em nota, a empresa informou que as Tibia Coins podem ser transferidas entre jogadores, mas são válidas apenas nos servidores oficiais do jogo e não apoiam o uso para outros fins. Alertam ainda que o risco de fraude é grande entre transações com dinheiro real, e que veta esse tipo de publicidade no jogo, penalizando quem faz isso. A empresa declarou que a prática conhecida como Guild Bank é permitida, e os usuários são livres para decidir como esses times serão estruturados.

Reportagem de Giacomo Vicenzo para UOL. Imagem: Reprodução

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