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Na novela “O Outro Lado do Paraíso”, Clara (Bianca Bin) consegue riscar mais um nome do seu caderninho da vingança: o de Vinícius (Flávio Tolezani). Desconfiada de que o medo que Laura (Bella Piero) sente de sexo tem a ver com a figura do delegado, ela aconselha que a moça faça uma terapia de hipnose com Adriana (Julia Dalavia).

O plano dá certo: Laura consegue se lembrar de todos abusos que sofreu na infância nas mãos do padrasto pedófilo. As memórias são peça-chave para Vinícius ir para a cadeia e fundamentais para Laura deixar os dramas do passado para trás e ser feliz com marido, Rafael (Igor Angelkorte).

Na vida real, relembrar momentos traumáticos –principalmente ligados a abuso sexual– é, de fato, um passo fundamental para conseguir superá-los. Segundo Gabriela Malzyner, mestre em Psicologia Clínica pela PUC/SP (Pontifícia Universidade de São Paulo) e psicanalista pelo Instituto Sedes Sapientiae, em São Paulo (SP), é muito comum que as pessoas bloqueiem esses acontecimentos da cabeça como forma de sobrevivência.

“Como a criança não tem mecanismos para dar conta do que aconteceu, aquilo fica meio ‘esfumaçado’ na mente. Muitas não se lembram direito, duvidam das próprias lembranças, pensam que podem ter sido um sonho. Ou seja, não têm certeza de que os abusos realmente ocorreram”, explica.

O bloqueio emocional é um mecanismo de defesa no qual o inconsciente oculta memórias de dor para evitar o sofrimento. “Quando isso acontece, entretanto, a situação dolorosa não deixa de existir: ela passa a se manifestar de maneira inconsciente, refletindo negativamente na vida da pessoa sem que ela perceba, transformando-se em doenças e padrões limitantes”, diz Leonar F. Vera, psiquiatra formado pela Faculdade de Medicina e Cirurgia de Milão (Itália) e especializado em Medicina Psicossomática e Hipnose Dinâmica.

Muitas pessoas têm dificuldade para se relacionar, consolidar a carreira, emagrecer, ter estabilidade financeira ou até mesmo se manter saudável. Para se libertar desse padrão, é importante descobrir sua origem e ressignificar as experiências negativas e traumáticas.

O poder curativo da fala

Uma situação ou um objeto que remeta ao passado pode trazer a sensação ruim à tona de novo. No caso de Laura, foram duas circunstâncias: primeiro, o desconforto ao transar com Rafael na noite de núpcias. E, segundo, o pavor que sentiu ao receber de presente (por obra de Clara) uma almofada com desenhos de tartarugas. Desde o início da trama de Walcyr Carrasco a personagem tem fobia do animal – a razão é que os abusos do padrasto aconteciam no tanquinho de tartarugas que a família tinha em casa.

Segundo a psicóloga Marlene Marra, autora do livro “Conversas Criativas e Abuso Sexual – Uma Proposta para o Atendimento Psicossocial” (Ed. Ágora), narrar o que aconteceu é difícil para a vítima, mas é libertador. “Dessa forma, é possível dar um significado ao que houve e modificar o que foi vivido, absorvendo a experiência de uma outra forma”, explica.

“Através do que chamamos associações livres, o paciente se põe a falar tudo aquilo que vem à mente, também relatando seus sonhos. A partir do que ele nos conta, é possível fazer interpretações e estimular as lembranças. Ao remoer o evento traumático e falar sobre ele, a pessoa aos poucos vai se desvencilhando de seus efeitos”, diz Gabriela.

As revivências costumam carregar sentimentos confusos e conflitantes. É provável que a pessoa tenha a sensação de que, de certa forma, o que aconteceu foi culpa ou merecimento dela. Vergonha, raiva e desejo de vingança também são comuns. Enquanto ela não elaborar esses pensamentos, eles se repetirão. “O que não pode ser dito, não é esquecido.”

As lembranças servem como provas?

De acordo com o advogado Fabrício Posocco, sócio-proprietário do escritório Posocco & Associados Advogados e Consultores, o laudo do terapeuta confirmando o abuso sexual na infância permite a instauração de um processo.

“Outras provas poderão ser produzidas, tais como um Boletim de Ocorrência, o depoimento da vítima, testemunhas, perícia e até mesmo o interrogatório do acusado, cuja condenação dependerá de provas”, afirma. Na novela, uma antiga empregada da casa de Laura confirmará à polícia a violência cometida contra a menina.

Segundo Fabrício, em 18 de maio de 2012, Dia de Luta contra o Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, entrou em vigor a Lei nº 12.650/2012, que modificou as regras relativas ao prazo prescricional dos crimes contra a dignidade sexual de crianças e adolescentes.

Antes, a prescrição, ou seja, o tempo para o agressor ser julgado ou punido pelo Estado, era contada a partir do crime praticado. Hoje, ela começa a ser contada quando a vítima completar 18 anos. “Como, muitas vezes, os crimes são praticados por pessoas próximas à criança, ela não consegue denunciar o agressor por medo, vergonha ou porque ela, na maioria das vezes, também não entende bem o que aconteceu. Agora, é possível chegar à maioridade e, com mais maturidade e independência, fazer a denúncia”, explica o especialista.

A lei levou o nome de “Lei Joanna Maranhão”, nome da nadadora pernambucana que, em 2008, revelou ter sido abusada na infância por um treinador.

Esta reportagem foi escrita por Heloísa Noronha para o UOL. Foto: TV Globo

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