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Cada vez mais os profissionais autônomos são valorizados no mercado, seja por sua flexibilidade, seja pela capacidade de atualização ou ainda pelo menor custo com relação ao funcionário celetista. Porém, você está preparado para enfrentar a concorrência como freelancer?

Nos últimos cinco anos, o mercado nacional vem sofrendo uma mudança de cultura pela qual a forma de um profissional manter a empregabilidade é o trabalho como autônomo, ou freelancer. Essa característica tomou ainda mais força com a crise econômica instaurada no país, que resultou no fechamento de postos de trabalho em diversos setores e colocou no mercado profissionais com habilidades que podem ser aproveitadas pelas empresas em condições mais competitivas que em uma contratação formal.

Em contrapartida, o profissional freelancer precisa lidar com um cenário competitivo, com a presença de profissionais estrangeiros a custos baixos e mão de obra especializada, além da robotização dos processos, que vem colocando máquinas no lugar de pessoas para o desenvolvimento de trabalhos em call centers, bancos e hospitais, por exemplo. Além disso, segundo a gestora de carreiras e master coach da Top Leader Training Andrea Deis, há o desafio de mostrar aos novos líderes as qualidades ligadas à inteligência emocional, ao contrário daquilo que normalmente é avaliado nos processos tradicionais de contratação.

Pensando, portanto, na empregabilidade e na tendência de que o mercado CLT diminua cada vez mais, o freelancer deve desenvolver competências que lhe permitam trabalhar por projetos, o que possibilita a flexibilidade de atuar onde houver espaço. “Como freelancer, há mais garantia de carreira que em um emprego. A autonomia possibilita trabalhar diferentes projetos em mais de um segmento e empresas, o que favorece o crescimento profissional”, ressalta Andrea, que acredita que o freelancer é uma megatendência de empregabilidade para o século XXI.

Diferencial no mercado

O freelancer tem liberdade de atuação, pois não está preso a determinados parâmetros, procedimentos e regras que as empresas normalmente costumam impor aos seus colaboradores. A flexibilidade é o primeiro aspecto positivo na carreira desse profissional. Isso facilita ainda mais a busca por qualificação e atualização, essenciais para ganhar destaque no mercado de trabalho. “É possível buscar horários de aulas menos convencionais, com melhores preços, o que contribui para manter a expertise, pois é isso que o mercado vai demandar”, explica Alexandre Prado, coaching de carreiras e consultor de empresas, presidente da Núcleo Expansão. “Quando o contratante opta pelo freelancer em vez de uma empresa, ele espera que o profissional ofereça ‘algo mais’, e isso pode ser uma tecnologia ou prática inovadora que otimize sua produtividade”, completa.

O segredo, contudo, é buscar a especialização em um nicho, porém, atuando em diferentes áreas de entrega, o que tornará o freelancer muito mais atrativo e empregável. “O mercado percebe que, quando o profissional trabalha por projeto, ele tem uma garra maior, pois, para ganhar novos clientes, é necessário estar cada vez mais
atualizado e focar cada vez mais em resultados. Quanto mais foco tiver nas entregas, mais poderá buscar novas oportunidades de trabalho e crescimento”, aponta Andrea.

Um dos diferencias que mantêm um freelancer em destaque, independentemente da área de atuação, são as novidades que ele oferece em termos de conhecimento que pode ser transformado em prática, ou seja, como serão aplicados os conhecimentos para que gerem resultados aos clientes. Nesse sentido, estudar o mercado e suas necessidades, bem como analisar a concorrência e como suprir suas deficiências, são atitudes que destacarão o freelancer.

Atendimento eficiente

A atratividade do freelancer está ainda relacionada à sua forma de organização e às ferramentas das quais ele lança mão para cumprir prazos e atender seus clientes com qualidade. “É imprescindível que o profissional seja comprometido com a entrega, pois a organização de agenda e fluxo é que determinará o cumprimento dos prazos”, aconselha Prado.

No entanto, sem uma estrutura ou equipe que o apoiem, em algumas situações será necessário recusar novos clientes ou trabalhos. Para isso, Prado recomenda que haja tato na hora fazê-lo, não simplesmente recusando o trabalho, e sim preocupando-se e comprometendo-se em ajudar o cliente a solucionar aquele problema. “Para não fechar portas, busque ser elegante e mostre que gostaria de atender o potencial cliente, explicando que a recusa vem da não capacidade, no momento, de entregar o trabalho com qualidade, por falta de agenda ou capacidade física”, aponta.

Há ainda a opção de negociar a data de entrega para poder atender, estendendo prazos, por vezes até flexibilizando a entrega de outros clientes, ou ainda indicar outros freelancers de confiança que ofereçam um bom atendimento. “Essa boa vontade e proatividade conquistam os clientes, e o mercado enxergará esse profissional de forma positiva”, alega Prado.

Por outro lado, se o profissional percebe que está recusando muito trabalho por uma demanda grande, é necessário pensar na possibilidade de expandir os negócios, contratando outros profissionais ou terceirizando parte do trabalho. Prado acredita que, “Se o freela está deixando de atender um cliente para redigir propostas ou resolver questões bancárias, vale a pena ter um assistente que auxilie no trabalho, gerando mais tempo e disponibilidade para novos negócios”.

Mercado competitivo

O freelancer não está sozinho no mercado. Existe concorrência, por isso ele deve buscar sempre se posicionar frente ao futuro empregador mostrando os seus diferenciais e, ainda, apontar como seu serviço vai agregar valor que justifique sua contratação em vez da de seu concorrente.

“Como regra, o ser humano tende a avaliar as pessoas pelo resultado final, e muitas vezes isso não traduz a competência, pois vários elementos influenciam esse resultado”, explica Fátima Orsi, psicóloga especialista em carreiras, sócia da Fors & Yamaguti. “Porém, a leitura do mercado com relação a um profissional é por meio da repercussão, ou seja, o que o trabalho dele trouxe em termos de resultados para os clientes”, completa.

A psicóloga brinca ainda que “Falar todo mundo fala, mas entre a fala e a ação existe um espaço, por isso é importante que o contratante saiba os feitos do profissional”. Fátima aponta que se torna mais interessante para quem quer contratar um prestador saber quais foram, de fato, as construções que o candidato fez no decorrer da carreira.

Captação e networking

De acordo com Andréa, o mercado já enxerga o freela como um conceito de profissional desejado, porém, ela aconselha que cada indivíduo desenvolva três características essenciais:

1. Desenvolva o empreendedorismo

Assim como um empreendedor, o freelancer é o dono do seu negócio e precisa aprender a vender o seu serviço e suas competências, bem como apontar, de forma eficiente, quais resultados seus serviços trarão ao negócio do cliente.

2. Desenvolva o QE

O quoeficiente emocional é um conjunto de traços pessoais como autocontrole, empatia, autoestima e autoconfiança, entre muitos outros, que, quando desenvolvidos, facilitam as relações interpessoais e podem ser transformados em ações.

3. Desenvolva um projeto

Foque no nicho em que você mais se destaca e ofereça ao mercado em forma de projeto. Enumere os benefícios, o que motivará o resultado, o que sabotaria se você não estiver lá, por que aquele projeto é importante. Por fim, aponte quais são as estratégias e recursos de que a empresa precisa dispor para contratá-lo.

Fátima alerta que é essencial, para o freelancer, participar de cursos ligados à área de atuação, não somente graduação, mas também ensinamentos que agreguem à formação e também se relacionem com as preferências do profissional. “Esses trarão, além de conhecimento, o relacionamento com outros profissionais, que pode resultar em networking. A troca de experiências também traz um posicionamento no mercado”, explica a psicóloga.

Para Prado, não adianta apenas ter uma ideia. É preciso saber apresentar e usar sua rede de relacionamentos também para networking. “O aluno que acaba de sair da faculdade, por exemplo, pode procurar o contato de professores, de amigos que estejam no mercado e possam indicar o trabalho, bem como de família e conhecidos”, elucida.

Essa consiste em uma das estratégias da jornalista e design Gabriela Brito de Araujo, que, além de manter o contato constante com os profissionais da área, faz uma curadoria dos trabalhos divulgados nas redes sociais, de forma que chamem atenção. “Divulgo apenas meus trabalhos de destaque e aqueles com os quais mais me identifico, para garantir que as pessoas me reconheçam por uma especialidade. Dessa forma, um cliente acaba indicando ao outro”, afirma a profissional, que, por conta dessas atitudes de divulgar-se como freela, conseguiu uma oportunidade de voltar ao mercado, o que julgou mais interessante no momento. “Minha divulgação continua e, sempre que posso, pego trabalhos como freelancer”, completa.

As redes sociais são uma ótima ferramenta, e gratuita, para ser visto pelo mercado. “Faça um perfil profissional, mostre capricho e construa uma imagem com bons trabalhos. Quem não é visto não é lembrado”, reforça Prado, que aconselha ainda ferramentas de e-mail marketing ou canais de vídeos curtos para divulgar os diferenciais profissionais.

Priorizando o cliente

No momento econômico atual, poucos são os profissionais que podem negar trabalho. Entendemos que, em alguns casos, é necessário buscar a flexibilização do cliente, porém, o próprio profissional também deve ser flexível com seus horários, para poder atender prazos de clientes importantes para seu portfólio e sua rede.

“Tudo é uma questão de momento de vida. Se ele precisa de estabilidade e da conquista de um mercado, vale a pena, por um período, dedicar mais tempo do dia para expandir seu trabalho. As oportunidades surgem à medida que o profissional vai se expondo e realizando o trabalho”, reforça Prado, que acrescenta: “Em algumas épocas, será necessário trabalhar mais; em outras poderá ter mais momentos livres. Não existe uma regra. É imprescindível que haja a percepção de saber em que momento precisa se dedicar mais, e, no geral, está ligado à demanda. Com a disciplina vem também a melhor estrutura de fluxo de trabalho”.

O outro lado da mesa

Tão importante quanto a especialização e divulgação do trabalho é saber se relacionar com seu contratante. “Por isso, tenha sempre portfólio em mãos quando for se apresentar, apresente suas referências e cartas de recomendação. Construa boas relações com os clientes para que eles o recomendem ao mercado”, aconselha Prado.

“Algo que é bem interessante é a simplicidade. Isso traz o que é verdadeiro, e hoje, quem busca um talento para desenvolver projetos observa o quão verdadeira a pessoa é naquilo que ela traz”, enfatiza Fátima. “Isso está em como a pessoa se porta, como se veste. Os selecionadores entendem quando a expressão corporal informa algo que é oposto ao verdadeiro”, acrescenta.

Direitos e deveres

Em linhas gerais, não existe legislação que regulamente a condição de freelancer, já que ele presta serviços e desenvolve projetos para diversas empresas de maneira totalmente independente, ou seja, não há vínculo empregatício e, portanto, não deve haver subordinação de maneira alguma. “Se, de alguma forma, o trabalhador receber ordens como convocação para reuniões, cumprimento de horário, uso de uniformes, ou se está subordinado a protocolos fixados pela empresa cliente, está descaracterizada a condição de autônomo, gerando automaticamente vínculo empregatício. Nesse caso, o profissional deverá reunir as provas documentais e testemunhas e ajuizar ação trabalhista para pleitear o vínculo empregatício”, orienta o advogado especialista em direito trabalhista Fabricio Sicchierolli Posocco, do escritório Posocco & Associados Advogados e Consultores.

De acordo com Posocco, a melhor dica para que um profissional freelancer não tenha problemas é a realização de um contrato de prestação de serviço com a empresa, evitando discussões inúteis sobre os limites do desenvolvimento do trabalho para o qual foi contratado ou ainda sobre o preço combinado.

Prado acredita ainda que ter uma empresa formalizada, seja MEI ou pequena empresa, também é forma de diferenciar-se no mercado. “Os empregadores enxergam a formalização com bons olhos, formando vínculo com mais que a pessoa física. Isso gera mais credibilidade. Logicamente, mantendo a saúde financeira da empresa.

Vale ressaltar que o contrato não precisa ser burocrático, bastando que sejam definidos direitos e deveres de ambas as partes, e respeitando, se for o caso, o Código de Defesa do Consumidor. “Assim, tanto para a empresa quanto para o trabalhador freelancer, a existência do contrato é o melhor negócio para prevenir os direitos das partes”, reforça Posocco.

Esta reportagem foi escrita por Rita Santander e publicada na revista Profissional & Negócios.

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